Ativistas de Florianópolis boicotam a venda de animais em Pet Shop da cidade

By |2018-12-03T13:27:36+00:003 dezembro, 2018|

A franquia pet Petz, que acabou de chegar em Florianópolis, já está causando polêmica. A venda de animais domésticos e silvestres nas dependências da loja afronta ativistas que trabalham na desconstrução da cultura de compra destes seres.

Com base em dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), esta prática além de contribuir para o aumento da população de cães e gatos em situação de rua, também é uma das razões que provoca o descarte destes “produtos”(como são vistos pelo comércio), que posteriormente são resgatados, tratados, castrados e mantidos pelos protetores. A manifestação pacífica contra a prática deste comércio será neste domingo, (2), a partir das 13h, na Rodovia José Carlos Daux (Rodovia SC-401), 5500, em frente à sede da loja.

Ao contrário que muitos pensam, é muito comum vermos cães de raça abandonados. Isto ocorre porque muitas vezes as pessoas compram o animal por impulso: porque é bonitinho quando filhote, porque o pet está na moda, e não considera que ele tem necessidades básicas, como os seres humanos. Eles comem, bebem, urinam, produzem fezes, precisam passear, gastar energia, brincar, ficam doentes, precisam de atendimento veterinário, o que gera custo, responsabilidade e tempo, razões estas que provocam o descarte, pois o bicho ainda é visto como coisa e não como um ser vivo senciente (capaz de sentir emoções como fome, dor, medo, angústia, prazer, alegria, etc.). O mesmo acontece com animais silvestres e exóticos (aves, roedores, répteis, etc.) que são deixados em meio à natureza. Neste caso a situação é ainda pior, pois as chances de sobreviver são mínimas, haja vista que este animal supostamente foi criado ou mantido em cativeiro por muito tempo, além de eventualmente ser um transmissor (vetor) de doenças para animais que já estão em seu hábitat natural.

Só este ano, o órgão municipal Diretoria do Bem-Estar Animal de Florianópolis (DIBEA), que está sempre com seu canil lotado, teve que resgatar dezenas de cães das raças Chow Chow, Poodle, Pastor Alemão, Boxer, Akita, e mestiços de diversas outras raças, fruto de cruzas indesejadas. O investimento no resgate, tratamento, castração e manutenção destes animais poderia ser repassado para outras necessidades, se não fosse pela venda indiscriminada, o abandono e os maus-tratos. Esta realidade também é muito comum entre os protetores independentes e ONGs de proteção animal em Florianópolis e região.

Segundo Daniel Ribeiro, do Instituto É o Bicho, o ato neste domingo, não é somente contra a venda de animais por parte da rede Petz em Florianópolis. A luta é contra o comércio de animais em geral, seja legalizado ou não. “Os animais (cães, gatos, coelhos, roedores, peixes, passarinhos, etc.) não devem ser comercializados, pois assim como os humanos, a vida não tem preço e não deve estar atrelado aos desejos e “demandas” humanas, pois eles não são coisas. Deve-se estimular a adoção responsável de cães e gatos, ainda mais que há muitos deles aguardando por um lar em Florianópolis. E quem quer adotar, certamente irá encontrar um amigo animal que tenha seu perfil e de sua família”, esclarece.

Daniel sugere ainda que os interessados em adquirir um pet, conheça antes o trabalho desenvolvido pela DIBEA, assim como de ONGs e protetores(as) independentes em Florianópolis e região, que há décadas contribuem com a vida dos animais! “Só em Florianópolis, há no mínimo cinco ONGs voltadas à proteção de cães e gatos, além de duas ONGs focadas em resgate e cuidados de animais silvestres” destaca.

Embora muitas pessoas acreditem que todos os filhotes são frutos do amor e reprodução natural dos pais, a verdade é que esta é uma indústria muito cruel, lucrativa e organizada. As melhores fêmeas, chamadas matrizes, são obrigadas a cruzar múltiplas vezes com machos até estarem prenhas. Esse processo acontece inúmeras vezes, até não ser mais possível engravidar, em muitos casos. Há situações em que são mantidas em gaiolas durante anos, onde vivem em meio às fezes e urina. Infelizmente, este é um ciclo ininterrupto, pois alguns filhotes acabam se tornando matrizes em canis clandestinos.

Outro agravante é a compra de um filhote sem conhecer os pais. Raramente os criadores excluem a matriz que contém determinada doença, que para preveni-la, o único modo seria evitar a cruza entre cães geneticamente afetados pela patologia, assim como castrar a fêmea ou o macho para evitar doenças nas ninhadas futuras, como: olho seco, úlcera de córnea, insuficiência respiratória, otites, sarna demodécica (sarna negra), dermatites, displasia coxofemoral, deslocamento de patela, problemas ortopédicos graves, entre muitos outros.

Para Natalia Bittencourt, representante do Movimento Floripa Contra Venda de Animais, a rede Petz teria muito mais sucesso e seria muito bem-vinda, se focasse apenas nos projetos de adoção de cães e gatos que promovem. “É uma política muito incoerente e hipócrita, pois se a empresa realmente se preocupasse com o bem-estar dos animais, como assim alega, não fomentaria esta indústria tão cruel. Não há a menor responsabilidade por parte deles em acompanhar a vida dos animais por parte dos criadores ou vendedores. Afinal, mesmo que um criador trate bem seus ‘produtinhos’, não se preocupa e nem pensa em garantir o bem-estar dos seus descendentes”, afirma.

De acordo com a American Human Society (HSUS/HSI), um casal de cães ou gatos pode gerar durante cinco anos, em sucessivas gerações, 12.680 espécimes, considerando duas crias por ano, de dois a oito filhotes. Estes dados refletem na realidade do País. Segundo a OMS, só no Brasil existe mais de 30 milhões de animais abandonados, entre 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães. Em cidades de grande porte, para cada cinco habitantes há um cachorro. Destes, 10% estão abandonados. No interior, em cidades menores, a situação não é muito diferente. Em muitos casos o numero chega a 1/4 da população humana. Isto, porque a cada 10 nascimentos, apenas 1 filhote consegue um lar.

– “Para que esta população de animais errantes reduza, é preciso que as pessoas se conscientizem que é fundamental castrar seus animais de estimação, que adotar é mais ético do que comprar e que eles são sujeitos sencientes, capazes de sentir como a gente, portanto não merecem ser descartados”, conclui Natalia.

Fotos: Dibea
Guadalupe (Mestiça marrom) Yago (Akita) aguardam por adoção na Dibea.