DO LAMENTÁVEL DESPEDAÇAMENTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO DO CAMPECHE

By |2018-07-30T19:31:58+00:0030 julho, 2018|

Por: Mônica Cristina Corrêa
Presidente da Associação Memória da Aéropostale no Brasil

O bairro do Campeche, em Florianópolis, foi palco de um dos mais significativos acontecimentos históricos do século 20: o surgimento da aviação comercial nos céus brasileiros. A grandeza do próprio advento da aviação dispensaria comentários. Antes de voar em pesados aparelhos, as sociedades humanas tinham ritmo, interação, comunicação e evolução diferentes. A aviação proporcionou o verdadeiramente novo: o mundo visto do alto, a aceleração e a aproximação, a vida reinterpretada sob outra perspectiva.

E tão rapidamente evoluiu a aviação, que parece ter imprimido à sua própria história a velocidade. No entanto, olhar para o passado da inigualável aventura de voar exige dedicação. Aviões passam num relance, mal se tem tempo de avistá-los cruzando o céu; a vida de quem vai e vem passa de modo semelhante. Mas a história daqueles que tornaram a aviação uma realidade – e hoje cotidiana – merece ser revisitada e, sempre que possível, preservada, pois muitos dos pioneiros se sacrificaram e outros tantos morreram para que se pudesse avançar.

No Campeche, vestígios daquela que foi a mais longa companhia aérea da década de 1920, a francesa Latécoère e depois Aéropostale, deixou traços materiais e imateriais. Há ali até hoje um casarão de pilotos, que data de 1927. Neste, pilotos pernoitavam, faziam as refeições (a chamada “popote”, rancho), tomavam café, iam e vinham impregnando a vida do remoto lugar entre mar e dunas de suas presenças inusitadas, suas vestes incomuns, toucas e longos casacos. O território onde desciam os aviões era um vasto terreno de pouso, no qual as pistas funcionaram até a década de 1940. Ali, aviões também da Panair viriam a aterrissar e depois os da Air France. Os mapas encontrados no Museu Air France, em Paris, tornam esse passado indelével e incontestável. (FOTO)

Toda uma história humana se desenvolveu e fez entrelaçarem-se franceses e ilhéus fraternamente no Campeche; a história da tecnologia, das asas e dos homens, entre os quais brilhava o piloto Antoine de Saint-Exupéry, também escritor e autor de um best-seller mundial, O Pequeno Príncipe (1943). O testemunho oral dos moradores e pescadores do Campeche ecoa a passagem dos pilotos franceses até os dias de hoje. O bairro reivindica seu passado pelos topônimos: são ruas, avenidas e comércio com nomes relativos à antiga Aéropostale e seus partícipes. E dos vestígios, o que se faz?

Os vestígios se despedaçam. Como se não fossem elementos da história que se conta sempre mais uma vez, que se repete às crianças e que já atravessou o oceano para juntar-se à de outras cidades que foram escalas na França, nos países da África e da América do Sul, a história estampada nas placas de rua do Campeche, nos seus estabelecimentos, verbalizada entre moradores e turistas é continuamente despedaçada e desperdiçada por litígios infindos entre os que se designam membros  de uma comunidade que nada tem de unânime e os responsáveis legais pelo que restou do patrimônio material da aviação no Campeche, bem como os funcionários supostamente qualificados para analisar o patrimônio histórico.

Assim, o vasto terreno que serviu de palco a proezas de pilotos, mecânicos e ilhéus, é agora cenário do desentendimento entre todas essas partes. Em 23/07/2018, uma ação judicial contra intervenções da Base Aérea de Florianópolis na mencionada área, impetrada pelo Ministério Público de Santa Catarina, foi indeferida, deixando estarrecidos e infelizes aqueles que a moveram ou incitaram. A Base Aérea alega, em sua defesa, que se vê obrigada a preservar o terreno submetido à sua jurisdição, o qual vem sendo continuamente invadido e depredado – fatos inegáveis, por sinal.

Para endossar sua decisão, o magistrado faz apelo aos responsáveis pelo patrimônio (IPHAN), que se pronunciam contra a preservação da área, alegando que esta não condiz exatamente com os pressupostos “canônicos” para um tombamento.

A sociedade vê, com isso, prevalecer a desqualificação de uma área inteira onde fatos importantes ocorreram. Nas palavras dos experts do IPHAN, a memória da aviação estaria apenas na cabeça de uns e outros, incluindo-se os estudiosos. Quem lê tamanho descalabro será forçado a sorrir… E onde mais, senhores especialistas, deveria estar a memória?

Que se leia o que diz o IPHAN:

“E uma vez que o instrumento do tombamento recai, necessariamente, sobre a materialidade dos bens, entendemos ser frágil a solicitação de tombamento de uma área cuja leitura espacial já se perdeu, sobrevivendo apenas na memória dos moradores e estudiosos que se dedicam ao tema. Dos remanescentes, temos apenas algumas edificações, cujas tipologias não guardam relação direta com o contexto de uma empresa aeroviária internacional, não sendo identificáveis pelo público externo (além de moradores locais) que visita a área”. (nossos grifos)

Ora, esquecem-se esses experts que, se hoje as edificações não guardam relação direta com o contexto de uma empresa aeroviária internacional, é justamente pelo absurdo descaso com que os responsáveis pela salvaguarda da área histórica vêm tratando o terreno há anos. Há que se perguntar, apesar disso: como poderia se julgar o terreno irreconhecível se neste se situam justamente um casarão de pilotos de 1927 (que aguarda há anos, invadido por moradores clandestinos, um restauro para receber um memorial temático), vestígios de antenas de rádio e, na outra extremidade, um monumento erguido pelos Amigos da Base Aérea em homenagem à dita empresa aeroviária internacional e seus heróis? Em torno do monumento estão redesenhadas a antigas pistas, como reforço à memória que o descaso deixa sem pejo extinguir-se. Sobre qual base simplesmente definir a área como irreconhecível e subtrair dela a possibilidade de preservação histórica uma vez que se está à luz dos mapas da Air France aqui reproduzidos e dos múltiplos relatos das vivências de autóctones? Finalmente, se esta mesma área se encontra sob jurisdição da AERONÁUTICA, não parece contraditório refletir que o reconhecimento da área só estaria na “cabeça de estudiosos”?

A (in)consequência dessas assertivas por parte do IPHAN num contexto de longo abandono do terreno pelas autoridades competentes levam a sociedade a um litígio sem fim e agora a fazer demarcações na área, numa espécie de delimitação territorial que divide as partes, certamente, sem que jamais elas tentem somar as peças.

Experts e poder público precisam lembrar que a história não é mero fantasma a assombrar o progresso para garantir o atraso. A história é o que permite ao homem existir. O que permite ao homem fazer mais do que simplesmente nascer e morrer, é a tradição que lhe dá sentido. Saint-Exupéry escreveu, aliás, que não passamos de um “nó de tradições” (Piloto de guerra– 1942).

A decisão judicial de 23/07/2018, independentemente de sua pertinência, põe a nu um litígio que só tem conseguido, ao longo do tempo, desfigurar a história do Campeche. Ela traz à tona a intolerância e a falta de diálogo entre as várias partes, o descaso dos caga-regras que (des)classificam o patrimônio sem avaliações cautelosas, a inércia dos órgãos competentes.

O patrimônio da história da aviação do Campeche vem se despedaçando enquanto instituições estrangeiras se esforçam no sentido de juntar as partes de um mosaico em três continentes para elevar sua qualificação à de patrimônio universal. O fato é ainda mais grave porque desse mosaico o Campeche tem uma peça quase inteira que deveria ser objeto de orgulho e proteção de todos os que desejam uma cidade melhor, os que anseiam que a história traga as chaves para o desenvolvimento turístico, cultural e econômico de Florianópolis. Não há de haver, pois, razões que se sobreponham a tais necessidades; somente uma reflexão comum poderá dar cabo de pendengas inócuas e dispendiosas e  fazer com que os atores convirjam sobre a salvaguarda da memória sem impedir que se instale um futuro promissor no Campeche, em Florianópolis, no Brasil. O terreno é imenso e é possível contemplar as necessidades de todos e ainda criar modelos de desenvolvimento. O resto não passa de discórdia infame cujo efeito incita a desqualificar o patrimônio e a pisotear a tradição; um efeito que legará às futuras gerações unicamente a vacuidade das picuinhas e as migalhas de ações interesseiras.

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