História de Pescador: Família Daniel/Chagas e a Pesca no Campeche.

História de Pescador: Família Daniel/Chagas e a Pesca no Campeche.

By | 2017-05-12T16:58:07+00:00 12 maio, 2017|

Na primeira metade do século XX ( 1947) os irmãos Daniel que viviam da Roça buscaram uma alternativa de subsistência na atividade pesqueira. Se uniram (Chico Doca, Deca Doca, Adriano, Crispim, João Doca, Euzébio e Timóteo) na compra de uma lancha do seu Mapinda do Ribeirão da Ilha, um exímio construtor de embarcações.

Florianópolis, 06 de maio de 2017.
Hugo Adriano Daniel – Professor/Historiador  

O valor pago foi de seis mil e quinhentos cruzeiros. Colocaram a lancha na armação do Pântano do Sul no rancho de pesca do Mané Pedro e passaram a pescar anchovas. Os que não exerciam as atividades pesqueiras também eram sócios do empreendimento por terem contribuído com cotas financeiras. O retorno do investimento estava de vento em popa para usar uma linguagem do homem do mar. Até que surgiu uma proposta de irem desenvolver a atividade pesqueira na praia do Cassino no Rio Grande do Sul, lugar de referencia da atividade pesqueira no Sul do Brasil.

Venderam a lancha e se uniram ao cunhado, Hipólito Farias das Chagas, esposo da Maria (Ica), a segunda irmã mais velha e compraram duas canoas: uma menor de nome corvina e outra maior de nome Albatroz que foi buscada na cidade de Joinville. Partiram então para o Rio Grande, exceto Adriano, Timóteo e o João Doca. Adriano tinha a ocupação de professor, Timóteo saíra do Exército e estava prestes a ingressar na Polícia Militar e João Doca estava muito envolvido nas lidas da roça que era a tarefa que mais gostava de fazer. O projeto não vingou. Durou apenas dois anos (1953-1954). Nem todos os planos dão certo, mas a vida continua e a união entre eles também.

Ao retornarem do Rio Grande a canoa menor foi instalada em um rancho de pesca construído na praia do Campeche existente ainda hoje, embora não no mesmo lugar. O rancho era nas imediações do famoso bar do Chico, demolido pela Prefeitura em 16/07/2010.

A Canoa maior (Albatroz) foi instalada na praia da Joaquina, bem no canto norte beirando a pedra e margeando as dunas. Crispim Daniel e Hipólito Farias das Chagas ficaram com este ponto de pesca tendo como patrão Lauro Sabino ( Seu Lalo) morador do Mato de Dentro e depois o patrão passou a ser o Euzébio Daniel (Binho). Com o tempo a praia da Joaquina que era denominada pelos nativos com o nome de Praia do Canto se valorizou e um senhor de nome Belfor tinha interesse na aquisição da propriedade extremante ao ponto de pesca da canoa Albtroz. Numa certa manhã do ano de 1959 a poderosa canoa Albatroz amanheceu totalmente destruída flutuando aos pedaços entre as pedras do costão da Joaquina. As redes também desapareceram, comoção total. O ponto de pesca acabou e o Crispim voltou a pescar com seus irmãos na praia do Campeche.

Mesmo sendo vitorioso na justiça, Crispim e seus irmãos nunca conseguiram esquecer da bela e poderosa Canoa Albatroz. Em uma ação judicial Crispim foi indenizado mas morreu sem receber a totalidade da indenização que foi de forma parcelada a perder de vista e sem punição ao não cumprimento da sentença, segundo moradores da comunidade.

Borboleta – A nova Canoa.

Alguns irmãos tinham como únicas fontes de sustento da família a agricultura e atividade pesqueira e outros como um complemento indispensável. Ter apenas uma canoa não era o suficiente para a captura do pescado pois ao lado dela agregava-se uma boa parte da comunidade que buscavam ali a sua subsistência. Liderados por Crispim Daniel e Hipólito Farias compraram uma figueira na propriedade do Mané Inácio no morro da Cachoeira do Rio Tavares, fundos da atual Garagem da Empresa Insular. Com mãos habilidosas e ferramentas afiadas (enxó de goiva) uma nova canoa começa a tomar forma. Para o acabamento buscaram na comunidade de Nova Brasília no município de Imaruí de Laguna um senhor, profundo conhecedor da arte de esculpir canoa de um pau só.

Era o ano de 1960 e a figueira se transformou em uma belíssima canoa medindo nove metros e dez centímetros de comprimento. Foi batizada de Borboleta, pois durante os trabalhos do entalhe da madeira uma borboleta aparecia diariamente e pousava em sua bordadura. A partir de então família Daniel/Chagas passou a pescar em abundância.

A canoa de nome Corvina que pescou muita corvina e anchova na Ilha do Campeche foi vendida no final dos anos de 1970 e em seu lugar foi comprada uma outra de nome Carochinha que por um erro de grafia foi registrada como carrochinha
Em meados da década de 1990,Timóteo, o irmão mais moço vende sua cota da sociedade para os demais sócios.
Todos permaneceram unidos na atividade pesqueira mas com a morte de alguns, os herdeiros assumiram os seus lugares até que no ano 2007 ocorreu um conflito e como nada dura para sempre, a sociedade se desfez.

Mesmo sem nenhum documento oficializando a partilha, a canoa Borboleta , seus remos, algumas estivas e uma rede passaram aos herdeiros do Crispim Daniel e de Hipólito Farias
A outra canoa, Carochinha, seus remos, estivas e redes passam a pertencer aos irmãos Adriano, Euzébio, Chico Doca e aos herdeiros de Deca Doca e João Doca. Esses no ano de 2009 compraram uma nova canoa que foi Batizada de Fada (Família Daniel). Com essas duas canoas a família Daniel continua a atividade pesqueira, especialmente a pesca da tainha, em sociedade, na comunidade do Campeche, preservando a cultura da pesca artesanal em nossa cidade

Que venham as tainhas – cerca rapazi.