Serra dos tesouros, lendas e tradições, planalto sul-catarinense

Serra dos tesouros, lendas e tradições, planalto sul-catarinense

By | 2016-11-28T21:30:57+00:00 11 Março, 2016|

No planalto sul-catarinense, por entre lendas e tradições, uma pequena cidade revela insólitas paisagens de neve e montanhas.

A neve é o principal motivo de os turistas subirem a serra catarinense no inverno. Ao lado de São Joaquim, Lages e Bom Jardim da Serra, Urubici é conhecida por integrar a rota da neve. Por isso está no caminho dos visitantes ansiosos pelas paisagens européias esculpidas no desenho das araucárias e nos campos cercados por taipas, rústicos muros de pedra.

Há algo de misterioso na atmosfera de Urubici e o visitante e sensível encontrará tesouros por onde andar. Tesouros escondidos nas lendas contadas pelos moradores mais antigos e tesouros da natureza, em forma de monumentos megalíticos, cânions riscados por cachoeiras, verdes vales a perder de vista. Um lugar pequeno onde a vida lateja em estado bruto, pura como o ar que se respira do alto de suas montanhas.

Tesouro dos jesuítas

Baús, panelas e potes com barras de ouro e prata enterrados entre as montanhas dos Aparados da Serra Geral. O imaginário popular de Urubici está repleto de histórias de tesouros. Para alguns não passam de contos de fada. Para outros, pistas que ajudam a decifrar enigmas inscritos em mapas e roteiros divulgados à boca pequena. Em busca da fortuna, há quem se aventure nas matas geladas desafiando o frio serrano e o apavorante “gritador” – lenda local sobre um uivo que assuta animais e pessoas na região há décadas.

Uma das histórias mais antigas é a do tesouro dos jesuítas. Expulsos do Brasil no século XVIII por ordem do Marquês de Pombal, os jesuítas teriam enterrado parte do tesouro de suas ricas igrejas nas estâncias dos Campos de Cima da Serra. Em quase três séculos de propagação, a lenda deu origem a vários relatos de fortunas enterradas por ricos fazendeiros em suas propriedades. Verdadeiros ou não, instigam a imaginação.

Terra de índios

Há duas versões para o significado do nome da cidade. Durante uma expedição indígena, uma índia teria avisado ao líder “Bici” sobre a presença do pássaro “uru” de grande ocorrência no local. A outra explicação divide a palavra “uru” (pássaro) e “bici” (lustroso), destacando certo pássaro lustroso na região.
Muito antes da emancipação do município, em 1957, a região foi habitada por índios ao longo dos vales dos rios Urubici, Canoas e dos Bugres.
A herança indígena também está enraizada em locais hoje transformados em pontos turísticos. As cavernas de Rio dos Bugres, a 10 km do centro, são apontadas por pesquisadores como possíveis moradias dos índios.

Arte rupestre

Urubici carrega marcas históricas anteriores aos índios. A cidade possui um dos sítios arqueológicos mais expressivos do interior de Santa Catarina. No Morro do Avencal, painéis de arte rupestre registram a passagem de antigas  civilizações há pelo menos 3 mil anos. A localização dos sítios em pontos estratégicos – que levam em consideração a posição do sol, dos pontos cardeais, a presença de monumentos megalíticos – dá pistas do complexo sistema de conhecimento destes povos acerca das leis do universo.

No sítio do Avencal, rochas superpostas e o desenho da máscara do guardião – concebida em alto e baixo relevo acima de outras inscrições – sugerem hierarquias e aura de sacrilidade ao local. Mas nada é tão sagrado quanto a vista do alto do Morro do Campestre. Gigantescos monumentos de pedras erguem-se numa espécie de Olimpo. Totens que lembram os arenitos de Vila Velha, no Paraná, por suas formas inusitas. De uma fenda natural na sequência de rochas, avisata-se o traçado do Canoas serpenteando por todo o vale.

Mais famoso que o Morro do Campestre é o Morro da Igreja, situado em área do Parque Nacional de São Joaquim. Além de ser o ponto mais alto – e provavelmente o mais frio – do sul do país, com seus 1.828 metros, guarda o cartão-postal da cidade. A Pedra Furada, impressionante escultura da natureza, desponta da extensa cadeia de montanhas, cânions, vales e nascentes de rios, como o Pelotas, afluente do Rio Uruguai. A configuração de uma igreja na pedra observada de baixo pra cima, ao pé do morro, foi a inspiração para o seu nome na época em que chegar ao cume era aventura para poucos. Isso até a Aeronáutica ignorar a demarcação do parque e instalar no topo o Cindacta II, base de monitoramento do espaço aéreo para toda a região sul do Brasil. Com a instalação do radar, em 1987, o acesso ao pico foi facilitado pelo asfaltamento dos 16 km da estrada, generosa em paisagens deslumbrantes. Em dias de céu azul, quando a cerração desaparece e a Pedra Furada ganha contornos mais salientes, é possível avistar o litoral sul a partir de Laguna.

Trafegar pelas curvas sinuosas da Serra do Corvo Branco também é garantia de visões privilegiadas. A estrada de 15 km que liga Urubici ao litoral sul ficou para a história como um intrincado projeto de engenharia e levou 40 anos para ser concluída. A construção da estrada ainda soa como enigma aos visitantes.

Quando os termômetros baixam, é no Morro da Igreja que os moradores vão esperar a neve. Se não nevou lá, provavelmente não nevou em nenhum outro ponto do Brasil. Em 1990, Urubici registrou temperatura recorde no país, com 17 graus negativos e sensação térmica de 40 graus negativos.

A contribuição dos povos imigrantes, os costumes serranos e a influência da cultura gaúcha fizeram de Urubici uma terra singular, de fortes contrastes e com estações bem definidas. O visitante pode degustar um bom churrasco e chimarrão, beliscar pinhão assado no forno a lenha ou experimentar as delícias do café serrano preparado por descendentes de alemães ou letões.

No verão, a prática de esportes de natureza e visitas às cachoeiras ganham destaque. As mais conhecidas são a Véu de Noiva, a caminho do Morro da Igreja, e a cascata do Avencal, com 100 metros de altura, muito procurada por praticantes de rappel. No centro, o Morro do Oderdeng (1.370 metros) é ponto tradicional para vôos de parapente e asa delta. Para aqueles que desejam maior integração ao clima serrano, a dica é aderir às frequentes cavalgadas pela região dos campos de Santa Bárbara, Campo dos Padres e Morro da Igreja.

Texto original: Maria Paula Bonilha
Adaptação: Letícia de Assis