Superpopulação de saguis em Florianópolis preocupa ambientalistas

Moradores incentivam permanência dos animais e os alimentam perto de casa

Os saguis são animais pequenos, engraçadinhos e espertos, e caíram na graça dos moradores de Florianópolis, que os alimentam com frequência. Este hábito, porém preocupa especialistas, que alertam: a prática interfere no ciclo biológico da espécie e pode ameaçar o equilíbrio ambiental da Ilha.

O sargento da Polícia Ambiental, Marcelo Duarte, alerta que alimentar saguis contribui para a superpopulação da espécie na capital catarinense, que se reproduz duas vezes ao ano:

— No inverno, por exemplo, é natural que eles não resistam ao frio e morram. Mas as pessoas vão lá, cuidam e dão comida — diz o sargento.

Para a bióloga Cristina Valéria Santos, que passou 15 anos estudando saguis, não alimentar é o melhor que a população faz para o equilíbrio ambiental.

— Dar comida para qualquer animal silvestre não é uma prática boa. Isso influi diretamente no ciclo de vida — explica.

Um dos resultados da aproximação entre homens e saguis está no Centro de Triagem de Animais Silvestres de Polícia Ambiental, no Rio Vermelho, Norte da Ilha: saguis atropelados, eletrocutados, machucados, doentes. Até 19 de outubro, foram 23 saguis. Já no ano passado, foram cinco.

Apesar do risco ambiental, não é fácil resistir aos bichos. Lena Thompson Flores, moradora da Lagoa da Conceição, tem a Mata Atlântica nos fundos de casa. Para ela, os saguis são uns queridinhos:

— É a coisa mais fofinha. Deixo banana pra eles, que vêm comer em família. Aqui na vizinhança todo mundo adora. Não nos incomodam em nada.

Donos de um sítio em Ratones, no Norte da Ilha, Percy Ney Silva e Andrea de Oliveira também simpatizam com os saguis.

— Somos suspeitos, porque trabalhamos com educação ambiental. Mas a gente é daqueles que assiste aos saguis roubando a banana do pé, achando a coisa mais linda — admite Silva.

Impactos negativos ainda são avaliados

Apontado por muitos ambientalistas como um problema para a fauna e flora da região, a pesquisadora Cristina Valéria Santos observa que não é possível afirmar até que ponto o sagui concorre com espécies nativas, mas ela garante que não representa uma ameaça ao macaco-prego, que se alimenta de coisas diferentes.

Cristina também desfaz o mito de que os saguis comem ovos de aves.

— Predadores de ovos são algumas aves, gambás, e roedores.

No cardápio apreciado pelo sagui estão insetos, pequenos vertebrados e frutas. Invertendo a cadeia alimentar, os pequenos macacos são presas de gaviões e de gatos domésticos.

Se é difícil medir o impacto negativo causado pelo sagui na Ilha, um benefício trazido por eles é a disseminação de sementes, que não são digeridas por eles e saem inteiras, de acordo com Cristina.

Espécie foi trazida em caminhões

Os saguis atravessaram décadas desde que caminhoneiros, nos anos de 1950, 60 e 70, os trouxeram para a Ilha. A prática na época era permitida. A história foi contada no trabalho de conclusão de curso de Comunicação Social dos jornalistas Rafael Lopes e Glaidson Guedes.

Guedes estranhou o grande número desses macaquinhos no Canto da Lagoa, onde mora. Resolveu investigar de onde eles vieram.

Trazidos do Sudeste e do Nordeste, como um mimo para guardar em casa ou como mercadoria, muito deles foram soltos nas matas da Ilha. O comportamento agressivo dos saguis na puberdade pode explicar o desapego dos donos pelos bichinhos, considerados, até então, inofensivos.

— Eles mordem, sujam o ambiente e fazem muito barulho — admite o veterinário de animais selvagens, Rogério Leonel Vieira.

Soltos por aí e com facilidade de se reproduzir, a população de saguis aumentou sem grandes problemas.

— Eles encontraram um ambiente perfeito, com poucos predadores naturais e abundância de comida — observa o veterinário.

A Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram), de Florianópolis, não tem controle sobre eles, mas acompanha um estudo de comportamento dos macaquinhos no Parque do Córrego Grande, feito por duas orientandas da pesquisadora Cristina Valéria Santos. Com base nesta pesquisa, a bióloga da Floram, Sayonara Amaral, aposta nos predadores naturais para o controle dos macacos.

Ibama também não tem controle

Introduzir primatas inférteis entre os saguis é a opção apontada pelo chefe do núcleo de Fauna do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em Florianópolis, Hélio Bustamante, que observa que o Ibama não realiza atividades para o controle de saguis e nem de outras espécies. Ele ainda ressalta que o sagui é protegido por lei, portanto é proibido matá-lo.

QUEM SÃO OS SAGUIS

Medem de 12 a 15 centímetros de comprimento de corpo. Com a cauda chegam a medir 35 centímetros
Pesam entre 350 e 450 gramas
Os machos atingem a maturidade sexual entre nove a 13 meses
As fêmeas, entre 20 e 24 meses
O período de gestação é de 140 a 150 dias. Normalmente nascem dois filhotes por gestação, algumas vezes podem nascer três
As espécies mais vistas na Ilha são sagui-de-tufo-branco (Callithrix jaccus), sagui-de-tufo-preto (Callithrix penicillata) e sagui-de-cara-branca
(Callithrix geoffroyi)

COMO LIDAR COM ELES

Não alimentar. Os saguis são espertos e sempre vão voltar para pegar os alimentos onde sabem que recebem comida dos humanos
Por serem primatas, eles transmitem doenças aos homens e vice-versa. Se for mordido por um sagui, procure uma unidade de saúde para tomar a vacina antirrábica
É proibido capturar os animais na natureza ou matá-los
Não se deve criar saguis em casa. Eles são animais muito ativos e com espírito de grupo. Quanto menos atenção, mais agitado, barulhento e agressivo fica o animal

Diário Catarinense
Júlia Antunes Lourenço
Foto: Adriano Soares

2016-11-28T21:30:38+00:00